Falar das coisas

Uns anos antes do 25 de Abril um amigo comum levou-me a conhecer o Agostinho da Silva. Bebemos chá, fiz festas a um gato, e ouvi-os falar.

"Agostinho da Silva costumava dizer que não podia receber direitos de autor sobre ideias que eram de todos.

Sento-me em frente da janela que não deita para a rua dos outros
mas para uma outra toda interior
e deixo-me escrever
com a consciência de por muito pouco de meu no muito que que é de todos

Que fazer destas palavras que teimam em existir
senão dá-las a quem as quiser ler?
Na certeza que só na sua partilha,
a partilha mais vasta do que somos faz sentido. "

In, Ao fim da tarde
João Crisóstomo
 

Telmo Salgado

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Por estes dias assinala-se o aniversário de Natália Correia, enorme figura das letras e das artes, e ativista cultural e da defesa do género feminino, faria 96 anos amanhã.
Lembrei-me pois ouvi alguns textos na rádio e que convido a revisitar.
 
Foi personagem que nunca conheci. Já a sra que a secretariava, a Adelina Bettencort, foi uma grande amiga.

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Parecem-me importantes as assimetrias. O velho e a criança são os extremos da vida a tocarem-se, e por isso a frase: a vida eterna ou a eterna vivacidade? Quanto a mim é uma escolha que todos os dias temos de fazer.

As pessoas querem a vida eterna sem se lembrarem da decrepitude, da perda das faculdades, da ausência. Já as almas heróicas preferem a eterna vivacidade por lhes permitir a descoberta permanente, o êxtase absoluto que a vida pode ser.

Deixemos a vida fluir sem receio do que dizemos, do que sentimos, do que experimentamos . Uma espécie de loucura consciente, de transgressão assumida.

O problema, há-de reparar, é sempre o medo do que os outros pensam, de como nos classificam. Mas se isso têm importância é porque não estamos à vontade. Ora convém entender que tudo está bem já que na vida só nos acontece o que escolhemos viver.

In, O problema é a mediocridade
Lisboa, 2008
João Crisóstomo
 
Convém aceitar a não estruturação da vida e a necessidade de deixar fluir, dentro e fora do ser. No fundo seria preciso compreender que a vida é o momento que passa, sendo a recordação mera tentativa de manter processos acorrentados, e a esperança no futuro a impossível tentativa de controlar o que ainda não aconteceu nem existe.
Isto é aquela ideia famosa da Iniciação como a vivência do eterno presente. Depois há técnicas, e cada escola terá a sua. Mas a mim parece-me que as técnicas que ensinam a viver o eterno presente, na verdade ensinam a controlar o vazio da imponderabilidade e o medo que daí resulta. Janis Joplin cantava: o amanhã nunca aconteceu.

In, O problema é a mediocridade
Lisboa, 2008
João Crisóstomo
 
Sempre me interessou o diálogo entre a criatura e o criador. Diálogo mudo, a menos que a criatura o transforme em palavras. As religiões, mais que a busca da transcendência, são o resultado da tentativa humana em encarnar (materializar) esse absoluto que lhe escapa permanentemente.

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Que é Deus no homem senão o sopro que o acorda todos os dias, que não lhe consente descanso nem cobardia? E que faz o homem com isto? Realiza e teme. Quando o temporal é maior do que a cobardia, ergue-se a sonhar as estrelas. E as estrelas consentem. É assim que vamos construindo, andando aos tropeções dentro e fora da alma, na nossa e na dos outros, em busca de algo que a todos redima. Mas a única demissão é a construção. É olhando a obra feita e por fazer, que no fim percebemos se valeu a pena.

In, Falar do Amor
Lisboa, 2004
João Crisóstomo
 
Aquele que ama deve entender que a razão maior do amor é a realização do ser. E através deste, a do conjunto. E, num nível simultaneamente o mesmo, e distinto, o do laço que nos une a todos.

In, Falar do Amor
Lisboa, 2004
João Crisóstomo
 
Fiz mais uma descoberta sobre mim própria. Não foi fácil, nem agradável, mas faz sentido. Descobri que não tinha criado na minha infância laços afectivos fortes. O resultado é uma certa insensibilidade emocional, uma certa frieza. Por isso, ainda que lamente algumas separações, nenhuma delas me custou verdadeiramente. Acho que não sei sofrer pelos outros. E descobri que isso terá a ver com o facto de não ter criado laços nem com pai nem com mãe.

(personagem Lídia)

O pior no sono é não saber que dormimos, e por isso sonhamos estar acordados.

(personagem Virgílio)

Colectivamente estamos aprendendo a lidar uns com os outros, sendo a sociedade a ferramenta que o permite. Se uns se moldam é porque são mais passivos. Se outros os moldam é porque são mais activos. E acontece que aqueles que agora são moldados, a seguir moldam outros.
O diálogo é permanente. A interacção também. Somos, acima de tudo, uma experiência colectiva. Os resultados têm o somatório de milénios, não o da época em que vivemos que, mesmo assim, e multiplicada por todos os intervenientes, já seria incompreensível.
Se pensarmos em todas as culturas que a nível planetário interagem (poderíamos falar em cósmico, mas isso seria uma ordem de grandeza excessiva) ficamos com uma ideia do que está em jogo.
Depois é preciso juntar a esta experiência as miríades de seres das diversas espécies que connosco partilham o planeta. Sendo quase impossível abarcar o conjunto.
Ora é o conjunto que altera, evolui, transforma e se transforma. A parte, o pequeno ser, seja homem ou mulher, que são nisto senão uma mistura de ansiedades e projeções pessoais, limitadas, infantis?
Pois se nem as questões comuns à nossa época conseguimos resolver, ou as do nosso país, ou até as da família em que nascemos.

Lisboa, 2008
João Crisóstomo
 
Em 2008 vivia-se a enorme inquietação do descalabro financeiro que começou nos Estados Unidos mas depressa contagiou a Europa. Entre os meus amigos, para uns era a ruína colectiva. Já para outros era o emergir de um novo paradigma económico e social. Os textos que se seguem nasceram desse momento.

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A banca comercial tornou-se uma forretice. Talvez por isso a ideia de contrair imprestimos a juros altíssimos começa a perder sentido. Olhem a Bolívia: nacionalizou o petróleo. Olhem o Brasil: ignorou os direitos das farmacêuticas e produz genéricos.
São sinais de um sistema que agoniza. Depois há valores mais importantes do que bancos e dinheiro: o ser humano, por exemplo.
É certo que temos de comer, mas se para comer tivermos de vender a alma ao diabo, ou ao patrão, será melhor passar fome.
Ninguém pensa nisto, antes pensamos em aforrar por causa do futuro. Ora o futuro é uma abstração.
Na verdade existem escolhas, e o momento em que as fazemos. Sendo esse momento, vivido sem medo, a construção da liberdade possível.

O mundo é um simulacro de realidades onde cada ser pratica e ensaia a sua versão.
É a mistura de todas, e a fé que cada um põe na sua, que cria o enredo, a telenovela, o romance de cordel. Situação que nos ocupa enquanto as asas não nascem. E antes de crescerem será melhor andar por cá ganhando experiência.
Depois não. Depois é preciso ascender e ver o mundo lá de cima, em colectivo, com transparência para os nossos actos e os dos outros, e por isso sem julgamento.

Lisboa, 2008
João Crisóstomo
 
Enquanto terapeuta dei assistência a inúmeras pessoas. Algumas suscitaram enorme reflexão sobre o sofrimento humano, seus motivos, formas de o atenuar. Inevitavelmente isso contagiou o que escrevo, sendo uma boa parte dos textos ainda a consequência.

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Sofrer valerá a pena se for por coisa importante. Quanto mais nos queixamos da sorte que temos, ou que não temos, menos os outros nos atendem.
Nunca duvidei dos que sofrem, mas também nunca percebi porque insistem em sofrer: basta desligar a ficha e sintonizar outro posto.


Estar atentos não basta, sendo conveniente dar o passo seguinte e ficar solidário com quem sofre perdoando aos que magoam. Então estaremos livres.
Perdoar e passar adiante no caminho. Melhor: ir para lá do perdão e da necessidade de o conceder.
Somos culpados mas também inocentes. Só Deus, capataz deste mundo, será responsável porque só ele é absolutamente consciente.
Aos seres falta-lhes a lucidez. Os homens, incapazes de assumir a sua menoridade e insignificância, inventaram a ideia da culpa /castigo. Não existe tal coisa: há experiências, e todas têm consequências.


Para quê o desespero, que resulta dele? Se nada resulta, para quê mantê-lo? Ou teremos assim tanto tempo para viver? A vida devia ser melhor aproveitada.
Quanto à solidão nada pode ser feito, e o que pode é atordoamento e fuga. A alma está só, eis a questão. Mas está só porque é criadora, porque é sensível, porque é única. Ora uma realidade única não se repete, não se reflecte fora de si.
Isso é uma coisa. Outra é a ausência de afecto: devemos dar e receber afecto. Negar-se a dar, negar-se a receber - eis o que me parece um crime.

Lisboa, 2008
João Crisóstomo
 
A maioria das doenças do corpo não se originam aí. Uma vesícula em colapso esconde, às vezes, a incapacidade de assumirmos o que nos incomoda. Uma crise renal, choques emocionais. Um diabetes súbito, a perda de um ente querido.
A nível global, no corpo social que colectivamente partilhamos, repetem-se sintomas idênticos, com idêntica origem.
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Olhando para o mundo podemos dizer que ele está doente por falta de confiança. A terapia tem de devolver-lhe essa característica. Como? Valorizando o que cada ser encarna de beleza, ternura, sinceridade, coragem, autenticidade, e multiplicando-os tanto quanto nos seja possível.
Quanto mais seres forem contagiados positivamente, maiores são as possibilidades de remir o estado de desgraça (por falta de confiança) em que todos (já que somos um ser colectivo) caímos.
Precisamos de equilibrar os pratos da balança cósmica e, se possível, fazê-los pender para o lado da vida.
Não vejo outra solução. E não vejo outra forma de o fazermos senão amando e confiando. Mesmo, ou sobretudo, quando em redor tudo nos levaria pelo caminho oposto.


A mentira (enquanto relatividade) está em nós, nas nossas ideias, na forma como queremos que a vida seja ou os outros nos correspondam. Sem entendermos que o que nos acontece é aquilo que tem de ser, já que o objectivo é a libertação do ser.
Há momentos de desânimo em todas as vidas: são as oscilações da alma, a sensibilidade às marés do sofrimento próprio e alheio. Aliás misturam-se fácilmente. Sendo difícil, por vezes, distinguir entre o que nos diz respeito ou é colectivo.
Entretanto, sofrer ou oscilar, não nos deve levar a pensar que estamos em perda. Pelo contrario: se oscilamos é porque estamos vivos, sensíveis, e aprendendo com tudo que, dentro e fora de nós, respira.
Há instantes uma borboleta entrou pela loja dentro e anda agora a esvoaçar. Como é negra, se fosse negativista pensaria que era um mau presságio. Como sou analista, penso que a vida me entrou pela porta a dizer que em tudo está presente.
Precisamos de olhar para os acontecimentos analisando até que se tornem transparentes. Então poderemos estar sozinhos ou acompanhados, sem nos enganarmos.

Lisboa, 2008
João Crisóstomo
 
O último fim de semana teve o mérito de me fazer saborear duas coisas importantes: o livro de uma senhora que escreve com toda a poesia do império do Sol Nascente 🌅, e um filme que dá pelo nome de Novo Mundo.

O filme trata do choque cultural e psicológico que os europeus do século 17, ao chegarem à actual Virgínia, provocam numa tribo local.

O realizador parece preferir os indígenas aos ingleses, o que não é difícil de entender dada a sua rigidez e intransigência. Mas o filme, mais do que uma análise de personagens, é um retrato dos estragos que os valores cristãos, quando em contacto com povos inocentes, produzem.

Problema idêntico terão tido os nossos pais ancestrais quando tiveram de abandonar o jardim paradisíaco. Mais que um lugar, o Éden seria um estado de inconsciência que a lucidez destruiu.

Abraço amigo
Crisóstomo
 
Há dias, após conversa com uma amiga depressiva, reflectindo no que a apoquenta mas também a muitos de nós, saiu-me esta reflexão.

O "tem de ser" é para os que andam cá por empurrão de uma força cega a que chamam acaso. Já tu e eu andamos porque queremos, e quando o nosso apetite se esgotar partimos.

A meu ver és uma menina sensível que pensa demasiado. Ora pensar é um luxo e uma dificuldade, até porque não se esgota a ideia. Depois, ao pensar na vida dos outros, a vida dos outros perde o pouco sentido que teria se não pensassemos. O resto é consequência.

O reverso desta moeda, é que quanto mais pensares mais perto da liberdade ficarás mas, por pensares, criarás uma barreira de cepticismo que te impedirá de dar o passo final.

Aliás têm sido este o problema dos intelectuais: estarem a ver a coisa do outro lado mas, porque a vêem pelo prisma do intelecto, não acreditam suficientemente.

Dizendo de outro modo: cada ser só pode partilhar a sua integralidade. Se dermos aos outros, não o que esperam, mas aquilo que somos, eles ficam cativos da sua projecção enquanto nós ficamos livres. O problema é a escolha: queremos encarnar a imagem alheia ou a nossa veracidade?

Abraço amigo
Crisóstomo
 
A amiga que referi esteve em África e veio de lá pobre e desavinda. A descolonização apressada e suas consequências para os que lá tinham organizado a vida, afectou-a profundamente. Mais do que bens, perdeu o próprio sentido de quem era. A reflexão que se segue nasceu dessa situação.


Existe um contexto no qual a barbárie dos povos se insere.

Há depois a indiferença.

Fizéssemos a guerra em nome de códigos éticos e talvez nos respeitassem. Mas só fazemos a guerra por causa do petróleo e das matérias primas.

Admito que o prazo de validade de algumas culturas pode estar a esgotar-se e daí a proliferação de doenças como a sida, por exemplo.

Como se em África alguém andasse a testar a política do genocídio.

Sinto que a verdadeira dimensão destas doenças nos é inacessível. Como aliás tudo que tem importância.

Sabemos o que dizem. Mas o que dizem é o que convém.

Só li uma coisa interessante sobre a África Portuguesa quando me veio parar às mãos o Livro Negro da Colonização. Na época publicava uma revistinha e atrevi-me a transcrever alguns parágrafos.

Imediatamente houve reclamações - é que aquilo era assunto acabado. Já não estávamos em África, tinha havido a descolonização, agora era para esquecer.

Na verdade não queremos incomodar-nos. E toda a gente a manter um quarto cheio de esqueletos, não ajuda.

Abraço amigo
Crisóstomo
 
A minha companheira tem uma predilecção por programas de televisão onde aparecem casais em diálogos intermináveis e dificuldades tremendas. Psicóloga de formação e professora de profissão, diz que a ajuda. Ora as dificuldades destes casais são, quase todas, de cariz sexual ou sexual /sentimental, sendo os enredos subsequentes, a consequência.


A primeira vez é sempre um sarilho.

A minha primeira vez foi há tanto tempo e no entanto não a esqueci. Depois, ao longo dos anos e das relações, muitas vezes lamentei não ser a primeira vez. E o estranho é que é sempre a primeira vez, mas só no primeiro instante. Depois emerge a experiência e é como conduzir. Antes de entrar no carro o receio de o fazer. Depois não, depois é só confiar.

Para mim foi estranho. Porque uma coisa são as brincadeiras e outra é esse primeiro orgasmo dentro de outra pessoa com ela em frenesim. Sejamos sinceros, é tudo muito confuso.

Para nós (falo da primeira vez) foi confuso e inocente. Lembro-me que estava a decorrer uma feira do livro e que fomos lá comprar uma enciclopédia médica porque queríamos ter a certeza do que íamos fazer.

Mas depois da primeira vez foram muitas vezes, umas doces, outras terríveis. Lembro-me de uma, especialmente, em que ela interrompe e exclama: você deve ter visto muitos filmes. Fiquei frio, muito frio. Foi o primeiro trauma, de muitos, que com ela vivi.

Abraço amigo
Crisóstomo
 

Bruno R. Almeida

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Tema complexo! E muitas das vezes cheio de crenças erradas!!
 

Telmo Salgado

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Ao fim-de-semana na Antena 1 o professor Júlio Machado Vaz debate e esclarece de forma tão objetiva, do quanto é possível no delicado tema das relações sociais e em particular as amorosas. O programa O Amor (com a companhia de Inês Menese) seguiu-se a muitos outros na rádio e na televisão - já imenso currículo do mestre psiquiatra e sexólogo. Curiosamente, na tv, pude assistir a pequenas mas enternecidas leituras de autores portugueses, em particular Eugénio de Andrade.
Vénia.
 
Eugénio de Andrade foi o grande poeta da minha adolescência. Voz ímpar, revivendo a terra, o sol, os elementos puros, a aldeia, as gentes simples (para muitos ele também o era) revelando (como Emilio Zola) esse lado rude e agreste que caracteriza a natureza quando se reflecte no homem.

Nasceu Capricórnio (19 de Janeiro 1923) e este signo bem se adequa ao seu modo de sentir, pensar, escrever - a ponto de que, quem decide estudar psicologia pelo lado da astrologia, pode usar a obra poética de Eugénio de Andrade como forma de entender o que é viver (descrevendo-se) sob o signo da cabra marinha.

E mais não digo para que cada um o possa descobrir lendo o que escreveu:


É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

......

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

.....

1
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2
Só o desejo é matinal

3
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria

4
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo

5
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe

6
Da chama à espada
o caminho é solitário

7
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?



Abraço amigo
Crisóstomo
 
Raros são os que escrevem como Eugénio de Andrade, como já perceberam. É preciso um trabalho ininterrupto sobre a palavra, simultâneo a um esmeril íntimo onde todo o acessório se exclui até só restar a nudez e a transparência.

Não me pretendendo equiparar à sua mestria, ai de mim, ainda assim tenho procurado realizar um aprofundamento deste personagem que me calhou viver e, tanto quanto possível, adequá-lo às necessidades daqueles com que me vou cruzando ao longo da vida - simultaneamente às que sinto.

No que à palavra diz respeito, nos últimos anos procurei que ela fosse simples e estabelecesse pontes. E daí estas reflexões com que me ocupo. Dois exemplos:


Nunca temos a certeza absoluta de que as nossas acções são justas. Essa é a margem de dúvida que a vida imprime a tudo, e que traz o grão de areia que magoa a ostra para que esta faça a sua pérola. Sem a dúvida éramos seres livres. Com ela somos seres conscientes das limitações mas também da capacidade de transcendência. Sendo o nosso ganho nesta vida.

....

Agostinho da Silva, a propósito das Descobertas, dizia que em Portugal só tinham ficado os Velhos do Restelo, estando aí a razão da decadência. Já Fernando Pessoa, nos textos que dedicou a Portugal, brincava com a situação dizendo que os portugueses eram heróis desde que não lhes pedissem tal.
Ora isto aconteceu porque os portugueses, tal como os Romanos da época imperial, se espalharam pelo mundo. Ideia maravilhosa porque cobriram muitas regiões e puderam aprender com outros povos. Mas também negativa porque, quanto mais se espalhavam mais se afastavam uns dos outros e da terra de origem, sendo que a maioria nunca regressou. O resultado foi uma espécie de esgotamento das forças que levaram a partir.
Agostinho dizia que o melhor de Portugal estava no Brasil e em África, e porventura está. Quando os africanos vieram construir a Expo vi aí o sinal profético de um regresso às origens. Depois vieram os brasileiros com a sua alegria para temperar a nossa nostalgia sem solução. Há nisto o intuito de juntar culturas que os portugueses ajudaram a criar.
Gradualmente o Portugal Europeu está-se transformando na Lusitânia enquanto berço de uma nova etapa humana. Processo subtil que está acontecendo à revelia dos poderes da governação. Sendo porventura necessário, para que se assuma completamente, eclodir na Península o que aconteceu outrora no Brasil: declararmos a independência e assumir que somos um povo diferente. Então talvez possamos viver o destino de espalhar o império da alma, tal qual o sonhou Vieira e profetizou Bandarra.

Abraço amigo
Crisóstomo
 
Hoje apetece-me falar de outras coisas...

Para assumirmos o que somos, ou o espírito é, precisamos estar livres de conceitos, de visões, de esperanças, de afectos, de receios. Sobretudo de ideias sobre nós, sejam boas ou más - tanto faz.
Esta liberdade nasce ou cresce quando tudo aquilo que consideramos certo se esgota, se perde, se indefine. Então a alma procura noutro nível os seus esteios e, incapaz de os encontrar (porque estes só existem no lado físico) abre-se para o divino, mergulha nele.
Sobrevêm então a beatitude. O amor ilimitado irrompe a ligar vidas dispersas, almas que nunca souberam umas das outras, conhecimento sem tempo nem lugar. Iniciação, se quisermos.

Abraço amigo
Crisóstomo
 
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